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SEU SEZEFREDO

A. A. de Assis


Já faz um bom tempo, numa das minhas visitas ao chão natal, participei de um almoço com um grupo de poetas fidelenses – moqueca de robalo preparada com especial esmero pelo chefe Jaime Olé. Na saída, logo na primeira esquina, encontramos Seu Sezefredo vendendo picolé e sorvete. Rodeamos o carrinho dele e cada um de nós fez seu pedido. De pronto José Theófilo puxou conversa com o sorridente velhinho: “O senhor é uma das pessoas mais queridas desta cidade. Um dia ainda vai ser nome de rua”.

Wálter Simão concordou: “Também acho. É um homem justo, honesto – a bondade em pessoa, e tem o carinho de toda a população. Porém me parece mais apropriado fazer uma estátua dele ao lado do carrinho, com um braço erguido, como se estivesse cantando os seus costumeiros pregões”.

Antônio Roberto acrescentou: “Seja nome de rua, seja estátua, seja o que for, seria uma justíssima homenagem. Além de ter muitas outras virtudes, ele é também um poeta. Vende suas delícias em versos – Piiicolé de tamariiiindo... quem prova fica mais lindo; sorveeete de tangeriiiina... nunca vi coisa mais fina; casquinha de goiaba... vem buscar, pois logo acaba!"

Pedro Emílio opinou: “Tudo bem, tudo bem, mas eu penso que o ideal mesmo seria dar o nome dele a uma escola. Todas as crianças o amam. Ele faz brincadeiras com a meninada, sabe o nome de todos e todas, bota apelidos engraçados, vende fiado a quem não tem dinheiro na hora, conta historinhas, canta modinhas, onde chega é uma festa”.

Evando Salim interveio mudando o rumo da prosa: “Pois para mim a maior homenagem reservada para Seu Sezefredo virá no final de sua passagem por este mundo: ele receberá direto de Deus um convite para ir morar no céu. Tem todas as condições para isso, inclusive uma que considero primordial: é um homem que, do jeito dele, usa o seu talento para o bem da sociedade”. Um espanto na roda de amigos. “Como assim? – perguntou Wálter.

Evando explicou: “Seu Sezefredo nasceu com o talento de vendedor ambulante. Porém não se limita a ganhar o pão de cada dia – vai muito além: faz isso com máxima simpatia, amor e ternura, adoçando a boca e o coração da freguesia. Ou seja: passa a vida inteira servindo alegria às pessoas, e assim cumpre exemplarmente sua bonita missão na Terra. Tem, então, acredito eu, todas as características de futuro cidadão do Reino da paz”.

Deu daí que a roda virou uma bela tertúlia sobre a fundamental importância de cada um fazer da melhor maneira possível, e sempre em nome do bem de todos, aquilo que nasceu para fazer.

Final unânime: no que dependesse dos poetas de São Fidélis, Seu Sezefredo, quando fosse chamado, poderia apresentar-se tranquilamente a São Pedro. O Reino do céu é a morada dos puros de coração – um lugar de gente boa e simples igual a ele. Estaria, portanto, em casa.

Vem-me essa história à lembrança toda vez que ouço a parábola dos talentos.

(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 6.7.2023)


AA de Assis – Fidelense, poeta, trovador, professor na Universidade de Maringá, juntamente com os poetas J.G. De Araujo Jorge e Luis Otávio criaram os Jogos Florais no Brasil. Em Maringá, onde vive, foi condecorado pela Câmara de Vereadores local, com a maior comenda daquele Legislativo: a “Comenda Dom Jaime Luiz Coelho”.


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